Contei 1 Conto: O Velho que não queria Morrer - Final

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Velho que não queria Morrer - Final



Era apenas o começo de mais um dia qualquer. Como de costume, Claudio despiu-se ainda no quarto e caminhou nu até o banheiro. Ligou o chuveiro e começou a escovar os dentes. Brincava, quase que inconscientemente, que o tempo perfeito para uma boa escovação é o tempo que o vapor leva para embaçar todo o pequeno espelho sob a pia. Obedecendo a sua rotina, sentiu-se enjoado. Claudio sempre sentia-se muito enjoado quando escovava os dentes. Por esse motivo aprendeu que jamais deveria comer logo pela manhã.
Tomou um banho rápido, vestiu-se e foi em direção a cozinha. Se não fosse tão tímido, gostaria de passar o dia inteiro nu, mas ele sentia vergonha de si mesmo. Já tinha visto na TV essas famosas praias de nudismo e sempre sentirá uma inveja das pessoas que conseguiam conviver com naturalidade tendo seus órgãos genitais balançando de um lado para outro. Encheu um copo americano de café requentado e tomou num só gole. Desde pequeno odiava o gosto que o creme dental deixava em sua boca. Caminhou até a varanda e sentou-se numa confortável cadeira de palha que comprara numa feira de artesanatos há cinco anos.
Embora aquela rua fosse a mesma, estava muito diferente. Casas deixaram de existir e outras, num desing mais arrojado, passaram a compor aquele quadro. O velho Ipê ainda estava em seu quintal, mas já não dava flores. Durante os anos, Claudio teve seis vizinhos diferentes, e o Ipê sempre fora motivo de discórdia entre eles. As pessoas realmente não acham muito lucrativo não ter uma árvore em seu jardim, mas mesmo assim ter de limpar aquela grande quantia de folhas secas que insistiam em perambular pelo quintal alheio. Certa vez fizeram até um “abaixo assinado” para que cortassem o Ipê, mas Claudio sempre foi relutante e as pessoas sempre obedeceram as suas vontades. Na verdade, as pessoas sempre nutriam um certo medo de Claudio, e depois que ele falou que seria capaz de esquartejar quem tivesse a audácia de cortar sua árvore, ninguém nunca mais tocou no assunto.
Tirou um maço de cigarros amassado do bolso, e somente no terceiro fósforo conseguiu acender o tabaco. Deu três pequenas tragadas, como se quisesse avisar o pulmão de que viria coisa pior adiante, e por fim, deu uma longa tragada, sugando com vontade, fazendo com que a brasa estalasse. Uma espessa nuvem de fumaça saiu de sua boca, dançou no ar com o vento e aos poucos foi sumindo, misturando-se com o ar puro, invisível.
Um grupo de garotos do outro lado da rua caminhava sentido a escola. Claudio sabia disso, pois todos carregavam suas mochilas nas costas. Um garoto pequeno estava mais afastado do grupo e corria para alcançá-los. Mais uma tragada no cigarro, e Claudio desejou que após a escola os garotos fossem brincar de bola, e acidentalmente uma caísse em seu quintal. O velho desejou que houvesse outro Claudio, aquele de setenta e dois anos atrás para ir buscá-la e lhe fazer companhia até a morte, assim como fez com Seu Osvaldo.
Após a queda, o menino passou a visitar seu Osvaldo todos os dias. No começo, ia pois sentia-se culpado de ter quebrado o ombro daquele homem tão frágil, e tinha um medo horrível de ser castigado por Deus no juízo final por conta disso. Se soubesse que iria cometer coisas muito piores na adolescência, não teria se sacrificado tanto. Mas depois de umas semanas, Claudio realmente simpatizou-se com o velho, e o velho com ele. Tornaram-se amigos. Seu Osvaldo ensinara Claudio a fazer embaixadinhas, já que seu pai foi morto por um assaltante quatro meses depois (era tão banana o pobre homem, que reagiu no momento errado), mas mesmo se tivesse vivo, nunca teria tempo para ensinar o garoto. Claudio também ensinou seu Osvaldo a assoviar com os dois dedos na boca, e mesmo usando prótese dentaria, o velho aprendeu com muita facilidade. Numa certa tarde, Claudio ajudava sua mãe a limpar o quintal, recolhendo aquele tapete de flores amarelas que sempre se formavam no outono. Genioso que era, de tempo em tempo caminhava até o Ipê e dava-lhe bicudas, como se a árvore quisesse atrapalhar a vida dele. Foi então que seu Osvaldo contou-lhe que aquela árvore havia sido plantada por ele.
Escute menino, os anos vão passar, as pessoas vão morrer, mas esse Ipê vai continuar aqui. E enquanto se lembrarem de você, você nunca vai morrer – disse-lhe Osvaldo, repreendendo-o.
E foi o que aconteceu. Seu Osvaldo morreu quatro anos mais tarde, engasgado com um osso de galinha. Desde então, Claudio nunca mais comeu nada que tivesse osso, e sempre que olhava para o Ipê, lembrava-se de seu Osvaldo, tornando-o vivo.
O garotinho cresceu nutrindo um medo terrível da morte. Depois que seu pai faleceu, ficou anos acordando no meio da noite e caminhando até o quarto para ver se sua mãe ainda estava viva. Só foi parar com esse costume quando numa dessas visitas noturnas, deparou-se com seu professor de educação religiosa transando com sua mãe. Foi traumático para ambos, mas como Claudio odiava essas histórias de inferno e de homens que eram capazes de multiplicar comida, viu uma bela oportunidade para ganhar boas notas, sem precisar estudar. Quando completou trinta anos, o medo voltou. Agora, já não tinha mais ninguém. Sua mãe havia falecido de pneumonia há alguns anos, ele não era casado e não havia ninguém em sua vida que ele tivesse medo de perder, a não ser ele mesmo. Tudo o que fosse fazer, calculava as probabilidades do resultado final ser um belo paletó de madeira. Resolveu não se envolver com ninguém, pois o medo de perdê-la seria terrível. Quando o instinto falava mais alto, masturbava-se imaginando as estrelas de Hollywood, ou então gastava seu dinheiro com prostitutas da cidade vizinha. Por sorte a AIDS não era tão divulgada naquela época, se não certamente ele ficaria o resto da vida no “cinco contra um”. Gastava mais dinheiro na farmácia que no mercado. Tinha horror de visitas médicas, pois tinha a certeza que mais cedo ou mais tarde, um jovem médico recém-formado encontraria um tumor do tamanho de uma laranja no seu cérebro, e estaria então fadado ao sofrimento e a morte.
Aquele garotinho inteligente viveu temendo a morte. Uma bela terapia resolveria seus problemas, mas a sociedade ainda via esse tipo de tratamento como coisa de gente louca, e ele preferiu parecer ser um homem sóbrio para sociedade de desconhecidos.
Sentado naquela varanda, deu-se conta de que estava vivendo apenas esperando chegar o dia tão temido. Deu-se conta que quando esse dia chegasse, não havia ninguém para chorar por ele, e o pior de tudo, é que diferente de seu Osvaldo, não havia deixado nada para que se lembrassem dele. Era apenas um velho amargurado, sozinho, que até então, não queria morrer.
Alguns garotos passaram gritando em frente a sua casa, fazendo aquela algazarra típica de crianças. Os gritos estridentes tiraram Claudio de seus devaneios, fazendo-o notar que passara algumas horas ali, sem fazer nada. Do mesmo jeito que fizera ontem, anteontem. Novamente o garoto menor corria apressado para alcançar os mais velhos, que pareciam nem perceber a sua existência. Claudio levantou-se e chamou o garoto.
- Acho que eles não gostam muito de você, não é mesmo?
- Não gostam. Mas meu pai vai me comprar um videogame.
- Gosta de chocolate quente?
Claudio levou o garoto para dentro da sua casa. O menino não estava assustado, mas desconfortável com a situação.
- Foi você quem matou? – Perguntou o garoto apontando para uma grande cabeça de veado que estava pendurada na parede.
- Não. Foi um grande amigo meu. O único que eu tive para falar a verdade.
- Posso ser seu amigo, até ganhar o videogame. Depois não vou ter tempo, sabe como é...
Claudio serviu a bebida ao garoto. Quatro goles foram o suficiente para fazê-lo dormir. Havia remédios na casa que Claudio nunca havia usado, e que dissolviam muito bem no leite quente. Fechou as janelas, caminhou até a cozinha e abriu o gás. Deitou-se ao lado do menino, sabendo que amanhã pela manhã, todos se lembrariam dele para sempre.

2 comentários:

  1. fiquei super feliz por descobrir que o menino cresceu e não comia mais nada com ossos (eu sei que nesse momento o seu inconsciente estava faznedo uma homenagem a minha pessoa.)
    e continuo feliz por vc ainda figurar no rol dos meus autores contemporâneos prediletos.

    orgulho de ser a sua outra metade (da dupla sertaneja ,óbvio.)

    ResponderExcluir
  2. Um desfecho suficientemente polêmico e à altura de Carlos Gouveia!!!
    Sua criatividade continua elevada ao quadrado!!!
    Grande reestréia amigo!!! Parabens!!!

    ResponderExcluir