As vezes estamos tão absortos em nossos problemas, que não percebemos as outras coisas boas que nos rodeiam. Era final do dia, e Claudio ainda estava sentado no jardim, em frente a sua nova casa. Permanecera assim desde que o caminhão de mudança partiu, deixando uma incrível quantidade de caixas de papelão espalhadas pela varanda. Um grande Ipê polvilhava o gramado verde com belas flores amarelas, tornando aquele momento realmente mágico para os pais do garoto, mas para ele, tudo aquilo era um saco. Ele odiava amarelo. Na sua outra cidade, fazia parte de um grupo de amigos - os melhores amigos do mundo segundo ele - mas sempre quando brincavam de Power Rangers, os garotos mais velhos sempre eram o azul, vermelho e verde, e assim, ou não brincava, ou tinha que aceitar o fato de ser o ranger amarelo, que na TV era uma japonesa, uma garota! Os outros meninos fingiam não ligar, mas Claudio sabia que era motivo de chacota quando não estava presente. Ele odiava amarelo.
Sua nova rua era mesmo muito bonita. Havia poucas casas, e todas muito agradáveis as vistas, mas esperto que era, Claudio concluiu que não deveria ter nenhuma criança na região, já que as quatro da tarde, a única criança que vira foi uma foto de uma menina enjoadinha estampada num caminhão de sorvetes.
O garoto gordinho achava que seu pai era mesmo um banana. Afinal, se um dia tivesse um chefe e ele o mandasse abandonar sua casa e mudar-se para um lugar totalmente desconhecido, Claudio daria de ombros, ou quebraria-lhe a cara.
Levantou-se do chão. Sua bunda estava um pouco molhada devido a umidade do gramado. Se fosse há uns dias, sua mãe já lhe forçaria a trocar de bermudas, mas naquele dia, ela só se preocupava onde colocaria a mesa de mogno. Ela sequer perguntou se o garoto sentia fome. Tomara que eu fique doente – pensou o garoto, enquanto dava pequenos chutes numa bola de capotão que ganhará de seu avô no natal passado.
Entediado daquela rua deserta, resolveu entrar para dar uma olhada naquele ambiente, onde seria sua prisão para o resto da vida. A casa não era de todo mal, mas o garoto fazia questão de ressaltar os defeitos.
Quando vocês ficarem velhos, não vão conseguir subir essa escada toda até os quartos, e eu não vou ficar carregando ninguém até lá em cima! – esbravejou o garoto, fazendo com que seus pais caíssem numa longa gargalhada.
Subiu os degraus batendo com força os pés no chão, reforçando a insatisfação de estar ali. Notou que havia três quartos na casa. Um para os pais, o outro para mim, e de quem seria o terceiro? Indagou o menino, que no fundo já sabia a resposta. Além de terem lhe tirado tudo, dariam-lhe o desprazer de ter um irmão, ou ainda pior, uma irmã.
Naquela idade, garotos acham garotas umas verdadeiras idiotas. Claudio era o tipo de garoto que adorava fazer as meninas chorarem, seja com um empurrão, um chiclete no cabelo, ou uma bela cuspida nos sapatos de lacinho. Ele realmente se divertia com tudo isso.
Voltou então para o jardim. Estava mais mergulhado em tristeza do que há cinco minutos. Arrependeu-se de ter entrado naquela casa.
A bola de capotão estava ali, em meio aquele chão coberto de flores amarelas. Claudio correu e deu-lhe um chute, que fez com que a bola batesse no telhado de sua casa, posteriormente no galho do Ipê, e finalmente caiu fazendo piruetas no quintal da casa vizinha.
Caminhou até o portão, e bateu as palmas algumas vezes. Mas aquelas mãos tão pequenas, não faziam um som capaz de chamar a atenção de alguém. Sem pestanejar, entrou.
Foi caminhando com cautela, pois lembrou-se do verão do ano passado, quando entrou numa casa abandonada com uns amigos, e um grande cachorro preto saiu correndo atrás deles. Claudio não estava disposto a ver a morte tão de perto novamente.
Avistou a bola, que ainda estava rolando na parte de trás do grande quintal. Assim que colocou as mãos no que fora buscar, a porta da casa se abriu. Mesmo sem estar fazendo nada de realmente errado (além de ter invadido uma propriedade desconhecida), Claudio sentiu seu coração acelerar, talvez esperasse que um grande cachorro raivoso pulasse para lado de fora e arrancasse seu pequeno braço numa só mordida. Mas não, com passos lentos, um senhor saiu na varanda. Ele não era nada parecido com o avô do menino. Seu João, pai de Evandro era um senhor robusto, tinha uma grande barriga de cerveja e um bigode tão branco que parecia que ele comerá um grande bolo de coco ralado e não limpou-se depois.
Claudio ficou parado, com a bola entre os braços, observando aquele velho caminhar com dificuldade em direção a ele.
- Não sabe tocar o sino, menino?
- Claro que sei, mas eu não alcanço. – disse o garoto tentando disfarçar a voz trêmula.
- Sabe por que você não alcança? Porque essa casa não foi feita para crianças entrarem.
Embora Claudio não fizesse questão de ser bem recebido por um velho, naquela cidade chata, sentiu-se ofendido. Esperava pelo menos ser melhor acolhido. Abaixou o olhar e caminhou em direção ao portão. Desculpou-se pela invasão, e tentou esboçar um sorriso, mas seus lábios repuxaram, como se seu cérebro mandasse a mensagem “agora não é hora de sorrir, moleque”.
- Você sabe fazer embaixadinhas?
- Não. Mas meu pai prometeu ensinar quando tiver tempo...
O velho, que até o momento parecia ser daquele tipo ranzinza, que fura a bola das crianças quando caem no quintal dele, soltou um sorriso murcho, mas muito amigável. Como se já tivesse muita amizade com aquele pequeno novo vizinho, contou-lhe que há alguns anos, era capaz de fazer quatrocentas e vinte embaixadinhas, de uma vez.
- Fazia numa facilidade, que não deixava escapar nem uma gota de suor!
- Mas o senhor é velho!
- Sim, sou velho. Por isso disse “há alguns anos”.
Claudio percebeu que foi indelicado. Geralmente as crianças sabem quando estão sendo maldosas, mas usam de sua posição para falar algumas verdades sem serem reprimidas.
Seu Osvaldo era o tipo de homem que atraia muitos olhares, por onde quer que passasse. Tinha os olhos verdes, que em dias muito ensolarados transformavam-se em azuis, um cabelo acobreado que lhe caia sobre a testa, e muitas garotas suspirando por ele. Os homens também o admiravam. Muitos queriam ser seu amigo, os que eram invejosos e inseguros demais para isso, espalhavam boatos maldosos referentes ao tamanho do seu pênis, ou suas preferências sexuais. Mas nada disso o abalava. Osvaldo sempre fora muito seguro, e galanteador o suficiente para conseguir o que quisesse. Mas isso foi ha quarenta anos. Hoje, Seu Osvaldo era apenas um velho magricelo, que vivia sozinho, esperando o dia que não acordaria mais com dor nas juntas, não acordaria mais com dor nenhuma.
Com dificuldade, o homem caminhou em direção a porta da casa, voltou-se para o menino:
- Vai ficar parado, ou vai me acompanhar? Acabei de fazer um chocolate quente.
- Desculpe, mas tenho que voltar para casa – respondeu Claudio, num leve tom de dúvida.
- Acho que fiz uma quantidade maior do que deveria. E se beber tudo, meu intestino vira uma bagunça! Estou-lhe pedindo uma ajuda.
Claudio lembrou-se dos conselhos de sua mãe, aqueles velhos conselhos que ouvimos tanto, que eles até perdem um pouco o valor. Não se pode falar com estranhos, muito menos entrar em suas casas. Mas também lembrou-se do “ajude os mais velhos”.
- Se o senhor tentar me machucar, com uma só bicuda quebro-lhe a canela!
- Canela! Uma boa idéia! Você vai provar o melhor chocolate quente da região!
Claudio soltou sua bola e seguiu seu Osvaldo, entrou na casa.
A sala de seu Osvaldo era bem escura, e tinha um cheiro engraçado. Uma mistura de mofo, chocolate quente, e loção pós-barba. Um grande tapete cor mostarda forrava todo chão, ou pelo menos boa parte dele. Uma estante cheia de livros dava apoio a uma TV Sharp, provavelmente de 1980, esta que Claudio descobriria com o tempo que já não funcionava há alguns anos. Na parede, uma grande cabeça de veado empalhado observava tudo o que acontecia.
O menino estava realmente assustado, e pensando seriamente se seria muita falta de educação sair correndo daquele lugar. Notou então que tinha algo muito parecido com seu pai: Também era um banana. Faltou-lhe coragem para correr.
Seu Osvaldo aproximou-se com uma grande caneca, trazendo contigo um cheiro delicioso de canela.
- Se por acaso o senhor colocou alguma coisa nessa bebida para eu morrer, meu pai é matador de aluguel, e ele pode acabar com você.
Osvaldo assustou-se com a fala do garoto, mas depois achou gozado. Deu um gole longo na sua bebida, e apoiando-se num móvel, sentou-se num poltrona de cor avermelhada, já com o estofamento todo gasto, soltando pequenos gemidos.
- Então seu pai é matador de aluguel?
- É. E aviso o senhor, dos bons!
Claudio sempre inventava histórias sobre a profissão de seus pais, talvez porque nunca tenha achado muito interessante falar para os amigos que seu pai era corretor, já que nem ele, nem os amigos, saberiam o que isso significa. Sua mãe já havia sido policial, adestradora de animais selvagens, e uma vez, quando cursava o pré-primário, espalhou que ela era stripper, pois tinha visto num filme que os garotos sempre achavam legal as strippers.
- De onde vocês vieram?
- De uma outra casa, bem mais legal que essa. O senhor gosta de morar aqui sozinho?
- Quem te falou que moro aqui sozinho?
- Eu senti. Minha mãe é psicóloga, sou um garoto bastante observador
Seu Osvaldo soltou uma grande risada, que veio acompanhada de um sequência de tosses secas.
- Você é muito inteligente, menino!
Claudio não sabia lidar muito bem com elogios, assim sendo, apenas abaixou a cabeça e sentiu um calor invadir sua face.
- Acho que esta na hora de você voltar para sua casa, sua mãe ficará preocupada.
A tarde já estava virando noite, e o garoto ficou desapontado em não encontrar sua mãe descabelada a sua procura do lado de fora. Seu Osvaldo acompanhou o garoto até o quintal, e observou ele caminhar e atravessar o portão. Notou que a bola, o motivo que lhe trouxe aquela pequena companhia, ainda estava em seu quintal.
- Garoto, qual seu nome?
- Claudio.
Seu Osvaldo caminhou até a bola, como sabia que não conseguiria abaixar para pegá-la, levantou um pouco uma das pernas e tentou chutá-la. Claudio observou, achando um pouco de graça naquela dificuldade toda. O pé de seu Osvaldo apoiou-se em cima da bola, que rolou inesperadamente, desequilibrando o simpático idoso que caiu fragilmente no chão. Os pequenos óculos que ele usava pularam e se espatifaram no chão. A bola ficou girando no próprio eixo, enquanto Osvaldo não se mexia. Claudio sabia que pela segunda vez, estava vendo a morte de perto. Gritou o mais alto que pode, até que a ajuda chegou.
(Continua)

Muito muito bom! Fiquei curiosa para saber o final.
ResponderExcluirAi coitadinho...ele não vai morrer né? Quase chorei já...não faça isso com o pobre velhinho! ;)
ResponderExcluir